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Parte 23

(continuação...)

Sentamo-nos à mesa e o empregado traz-nos os menus.

Pedimos um presunto de vaca com azeite e manjericão para entrada. Optamos por dividir pratos de peixe e carne, pelo que pedimos para nos trazerem primeiro um bacalhau confitado com broa, especialidade da casa, acompanhado do vinho branco que nos serviram à entrada. De seguida, aconselham-nos o peito de galo celta com puré de couve flor e cenoura, acompanhado por um copo de vinho tinto da Bairrada. Aceitamos a sugestão e voltamos à conversa. O professor de Redes já  respondeu ao envio do trabalho com elogios, pelo que ela estava muito feliz. Falámos também do João e da Sofia e lembrei-me que ainda não lhe tinha dado notícias. Rapidamente, escrevi-lhe uma mensagem de Whatsapp a informar sucintamente do estado do meu pai e dizendo-lhe que amanhã também não ia às aulas. Ele respondeu garantindo que depois me passava os apontamentos todos e a desejar as melhoras. Agradeci e voltei à Luísa. Nisto, chegam as entradas e deliciamo-nos com a magnífica iguaria, enquanto falamos de trivialidades. Estou mais bem disposto apesar de tudo e a Luísa está a fazer um esforço por me ajudar a esquecer um pouco o azar do meu pai.

O jantar decorre maravilhosamente e terminamos com cafés, demasiado cheios para sobremesas. Depois do jantar vamos passear um pouco à beira-rio, de mãos dadas. 

- Luísa?

- Sim, Tiago?

- Nós somos namorados?

- Já te disse. Na minha cabeça, sim. Não quero estar com mais ninguém? E tu, o que pensas sobre isso?

- Penso o mesmo que tu.

- Então sim, somos namorados.

- É assim tão simples?

- Para quê complicar? Não é rocket science, querido. Temos 20 anos, gostamos um do outro, gostamos de estar juntos. Se tu não queres estar com mais ninguém...

- Eu? Eu não...

- Pronto. Não preciso de um convite todo fancy e romântico como o João fez à Sofia. Nem de um anel a comprovar que estamos juntos. Só preciso de ti a meu lado e de saber que és feliz comigo e que não queres estar com mais ninguém. Isso já me deixa satisfeita. 

Paramos e eu olho-a nos olhos. Mesmo de máscara, dá para ver que ela está feliz com a conversa. Quanto a mim, esqueço por momentos o problema do meu pai. Abraço-a e seguimos de mãos dadas, felizes, até à porta da casa dela.

- Sobes?

- Não. Tenho de ir para casa, mandar um email ao professor de Álgebra a explicar a situação e a pedir uma data para repetir o teste.

- Não te esqueças que deixaste cá a tua mala da roupa.

- Ahhh, verdade. Já me tinha esquecido. Afinal subo. Mas só cinco minutinhos.

Subimos a casa dela. Pego na mala e levo-a até à porta. Despedimo-nos com um beijo apaixonado e um abraço bom.

- Dorme bem, namorado - diz-me ela, gozona, enquanto desço a escada.

Vou até à Residência e desfaço a mala. Ligo o Spotify e coloco uma playlist de Rock Clássico. Abro a plataforma enquanto os Beatles cantam o Norwegian Wood e encontro o contacto o professor de Álgebra. Escrevo um email a explicar o meu problema familiar, pedindo desculpa por não ter feito o teste e solicitando-lhe nova data para o fazer. Anexo uma declaração de presença do HUC e envio o email. Ponho o despertador para as 8 e deito-me na cama, enquanto os America cantam que atravessaram o deserto num cavalo sem nome. E adormeço em seguida, preocupado com o meu pai. Mas contente comigo.

Acordo com o despertador e tenho uma sms da Luísa. "Bom dia namorado. É só para mandar um beijinho e desejar que tudo corra bem com o teu pai". Respondo nos mesmos moldes e vou tomar banho. Despacho-me e sigo para o Hospital, no autocarro. Chego lá e peço para falar com o médico, informando que ele deve estar a aguardar-me, tal como a Susana me disse ontem. O Doutor vem pessoalmente à recepção e leva-me para o seu gabinete. Conforme combinado, ligo para a minha irmã em alta voz que, com voz formal, cumprimenta o médico antes de ouvir o relatório da noite do meu pai e dos próximos passos. Ainda não foi retirado do coma induzido para não haver sofrimento com dores mas passou bem a noite. A pressão intra-craniana foi medida ininterruptamente toda a noite e pela manhã fizeram novo teste para confirmar que não haviam quaisquer inchaços ou coágulos. A minha irmã fez duas ou três perguntas começando-as por "colega" e usando termos complicados e depois das respostas, desdobrou-as em termos leigos para eu perceber e poder explicar ao Diogo. Estava tudo bem com o meu pai, a recuperação, apesar de longa, era quase certa. O braço, a perna e a anca foram tratados também e deviam sarar completamente. Saio feliz do gabinete e despeço-me do médico com um fist bump, depois de agradecer o excelente trabalho. Infelizmente o meu pai ainda está na UCI, pelo que não o posso ver, mas garantem-me que ele está bem, sem dores e que em breve o retiram do coma induzido. 

Telefono ao Diogo e informo-o de tudo o que se passou naquela manhã. Do lado dele, ainda não há novidades mas assim que as houver diz-me. Pergunta-me pelo jantar de ontem e eu digo-lhe que a minha namorada gostou muito. Ele dá-me os parabéns pelo namoro e tal como a minha irmã, faz-me prometer que vou tratá-la bem e não fazer parvoíces. Depois aconselha-me a ir à Universidade e retornar as aulas, voltando no final do dia para saber novidades. Informo-me na recepção e dizem-me que enquanto o meu pai estiver na UCI eles ligam diariamente com o update do dia. Deixo o meu número de telefone e peço para me ligarem às seis da tarde, garantindo assim que não estou em aulas. Volto para a Universidade aliviado. Pelo caminho abri o meu email e o professor já respondeu. Compreendeu a situação, lamenta o sucedido e deseja rápidas melhoras. Mas a avaliação tem que ser feita, por isso pede-me para ir ter ao gabinete dele o mais rápido possível, para agendarmos o teste novamente. Saio do autocarro junto à Universidade e sigo para o moderno edifício do Departamento.

(continua...)