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Parte 22

(continuação...)

Passo a tarde no hospital à espera de novidades. A minha mãe telefona e, pela conversa, entendo que ainda não está a par de nada. Evasivo, cumpro o que o meu irmão me pede e finjo que não sei detalhes e prometo ligar quando souber novidades. A Luísa também me liga e ponho-a a par. Oferece-se para me fazer companhia mas rejeito. Quero ficar sozinho. Ela percebe. Só lhe peço para passar no HUC e dar-me o carregador do telemóvel que está no quarto dela. Quando ela lá passa à boleia do João e da Sofia, dá-me um abraço e um beijo, mas estou tão alheado que ela não demora mais que dois minutos. Finalmente, às sete da tarde, sei mais qualquer coisa. O meu pai já saiu da operação e está no recobro. A operação correu bem mas o prognóstico é reservado. Ligo à minha irmã Susana que novamente atende ao primeiro toque. Digo-lhe o que me disseram e ela desliga com um "Não ligues ainda ao Diogo. Deixa-me tentar falar com o Neuro. Já te ligo" Aguardo enquanto ouço Kashmir. A linha de baixo deixa-me animado. A voz do Robert Plant acompanhou-me toda a tarde, mas esta música sempre foi especial para mim. Com os últimos acordes, o meu telefone toca. É a Susana. Já falou com o cirurgião e garante-me que a operação foi, dentro do possível, um sucesso. Não conseguem garantir ainda que não há danos permanentes, mas a probabilidade é boa. O cenário está menos negro. Aconselha-me a ir para casa, porque hoje já não vão dar novidades, mais vale descansar. Pede-me para estar no HUC novamente amanhã às nove da manhã. A essa hora, peço para falar com o médico e recebo um update. Ligo-lhe e falamos em alta voz com ele. Ela pode colocar mais questões se for preciso e ficamos a saber o mesmo. 

- Tiago, estamos muito orgulhosos de como lidaste com a situação, maninho. Estás a ficar um adulto!

- Obrigado mana. Este ano a escola corre-me melhor e fiz bons amigos que me estão a ajudar também.

- Ai é? Que bom! Tens tirado boas notas é?

- Tive 18 a Estruturas, que é um dos cadeirões. Tenho é de falar com o professor de Álgebra. Estava a começar um teste quando a mãe ligou a dar a notícia do pai.

- Boa nota! Continua assim, Tiago. Quanto a Álgebra, não te preocupes. Fala com o professor, pede uma justificação no hospital e repetes o teste outro dia.

- Vou fazer isso, sim.

-Olha lá. E namoradas?

- Conheci uma rapariga espectacular, estamos a conhecer-nos...

- Que boa notícia! Espero que ela te trate bem. Não te esqueças de ser sempre correcto para ela, mesmo quando as coisas estiverem mais difíceis e tu tenhas a razão. Sim?

- Sim, Susana. Podes ficar descansada, que não te faço passar nenhuma vergonha!

- Acho bem, puto. Senão levas porradinha, ouviste? 

Sorrio e despeço-me dela mais animado. Ligo para o Diogo, que está em casa dos meus pais. Ele sai de casa para falar comigo sem a minha mãe ouvir. Descrevo-lhe a situação do nosso pai e a conversa com a nossa irmã. Ele explica-me o que se passa em Seia. A empresa tem os seguros todos em dia e a papelada toda assinada mas o poço do elevador em que o pai caiu devia estar vedado para prevenir acidentes e não estava. Quando os bombeiros levaram o meu pai, reportaram a situação à companhia de seguros. É muito provável que por causa disso o pai não tenha direito às despesas do hospital pagas pelo seguro. A recuperação muito menos. O meu irmão está possesso e garante-me que, caso seja esse o resultado, coloca um processo tão grande em cima do construtor que quando ele der por isso tem de pagar um monte de dinheiro de indemnização.

- Mas Diogo... E até lá? Isso vai demorar muito tempo. Como é que pagamos o hospital? E a fisioterapia, se for preciso? Ou pior... se o pai não recuperar?

- Tem calma Tiaguinho. Eu tenho uns dinheiros de lado, o hospital e o que for preciso a seguir eu pago. De certeza que a Susy também ajuda. O que é preciso agora é que fiques aí e nos vás pondo todos a par de tudo enquanto eu tento resolver as coisas aqui em Seia e não enervar a mana enquanto ela está em casa a tomar conta do Marito. Tens o papel mais importante dos três e estamos todos a confiar em ti.

- OK mano. Podem confiar.

- Olha lá. Tens aí amigos? Uma namorada? Alguém para te ajudar se for preciso?

- Tenho o João, um bom amigo, do meu curso. E a Luísa.

- Quem é a Luísa, Tiaguinho?

- É uma amiga...

- Amiga ou namorada?

- Ainda não sei. Olha... a mãe dela é professora de Direito...

- Sabes o nome?

- Anabela qualquer coisa Rodrigues

- Claro que sei quem é. Cadetrática de Penal. Lembro-me bem dela na faculdade. Pessoa espectacular. Mas nunca foi minha professora. Era a directora do CEJ quando lá andei. Se falares com ela, manda cumprimentos meus. Ela sabe quem eu sou.

- OK mano.

- Vá... agora vai descansar. Vou-te mandar um dinheiro por MBWay, oferece um jantar à Luísa que eu pago.

- Não é preciso...

- Não sejas tonto. Vai lá. Diverte-te um bocadinho hoje que bem mereces. Foste um apoio espectacular. Amanhã liga-me depois de falares com o Neuro e a Susy.

- Combinado. Beijinhos, mano.

Um minuto depois, recebo uma notificação no MBWay. O meu irmão mandou-me 200€. É quase o que eu gasto em comida num mês. Telefono à Luísa, conforme prometi. Ela atende ao terceiro toque.

- Estou, Tiago?

- Sim, olá Luísa.

- O teu pai?

- Está tudo encaminhado, felizmente. Já te conto. Já jantaste?

- Não, estava aqui de roda de um trabalho de Física. Queres jantar comigo?

- Não. Quero oferecer-te o jantar. Posso?

- Claro que podes. Saiu-te o Euromilhões?

- Não. Já te explico. Apanho-te à porta de casa dentro de meia hora?

- Sim. Claro. Qual é o dress code?

- Como quiseres. Qualquer coisa te fica bem...

- Tão fofo! Obrigado querido. Até já. Beijo.

- Beijinho, até já.

Reservo mesa no restaurante "No Tacho" para daí a uma hora e apanho um táxi para casa. Tomo banho, visto umas calças novas em sarja e uma camisa bonita, os sapatos de camurça e um casaco e vou até casa da Luísa. Toco à campainha e ela desce. Quando aparece à porta, cai-me o queixo. Veste um vestido preto cintado comprido, que lhe assenta maravilhosamente nas magníficas curvas do corpo, umas sandálias de salto fininho azuis com mala da mesma cor, o cabelo está preso de forma artística, com uma madeixa a pender-lhe junto a uma das orelhas e preso com um travessão bonito. Usa brincos com pendentes também azuis e um fio colorido comprido que termina logo abaixo do generoso decote, com um medalhão grande na ponta. Está magnífica. Assim que sai, mira-me e assobia de espanto.

- Uau Tiago. Gosto muito do look. Estás muito giro.

Ainda a recuperar do choque, digo em voz baixa.

- Luísa, tu estás linda!

- Gostas? Não é too much?

- Não. Estás perfeita!

- Oh... Obrigada. Onde vamos?

- Ao "No Tacho". Conheces? Diz que é bom!

- Fui lá uma vez com a minha mãe. Gostei muito! Marcaste mesa?

- Sim, para daqui a vinte minutos.

- Temos tempo. Vamos a pé?

- Sim. Podemos ir a conversar.

- Isso. Como está o teu pai?

Repito novamente a história. Ela ouve atentamente e faz-me algumas perguntas. Fica contente por saber que os meus irmãos me estão a apoiar. Quando lhe digo que o Diogo conhece a mãe dela, ela ri-se e diz que quando estiver com ela, transmite os cumprimentos. Chegamos à porta do restaurante dez minutos antes da hora e o empregado, simpaticamente, pergunta se queremos beber qualquer coisa antes do jantar, enquanto preparam a mesa. A Luísa pede um copo de vinho e eu, pouco habituado a estas coisas, peço o mesmo. Quando somos servidos, ela brinda "à saúde do teu pai" e eu olho-a agradecido nos olhos. O vinho está bastante fresco e é muito bom, frutado e saboroso. Nervosamente, vou bebendo sempre que ela bebe, enquanto falamos. Passado alguns minutos, o empregado chama-nos. A nossa mesa está pronta.

(continua...)

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