Fábula #20
When I Met You
Conheci-te na Internet, o Cupido do Século XXI. Imediatamente me atraíste, pela escrita sedutora, pela liberdade de pensamentos, por seres como és.
Trocámos emails inócuos durante meses. Eu tentava aproximar-me e tu fugias. Até ao dia em que fugi e foste tu quem correu atrás de mim. Progredimos para o Whatsapp semanas depois de teres o meu número, por vontade tua. Fizemos algumas sessões de sexting e voicing calientes que me levaram à loucura, com poucas fotografias e ainda menos vídeos, mas com muitas frases inspiradoras e voices sensuais.
Não importava a hora ou o dia, estavas sempre presente na minha mente e eu sempre disponível para te corresponder, conforme quisesses. Temos demasiado em comum. Não é saudável que duas pessoas amarradas como nós se conheçam num momento tão bom e ao mesmo tempo tão mau. Mas foi o que aconteceu.
Um dia, cai a bomba. Queres estar comigo. Convidas-me para almoçar, um dia destes. Acontece que eu não sou de deixar convites destes no ar, visto uma roupa adequada, saio de casa e conduzo em direcção a um bom restaurante de sushi, com uma garrafa de vinho. Encomendo para dois e dirijo-me ao teu bairro. Ligo-te pela primeira vez desde que tenho o teu número e informo que tenho o almoço ao meu lado. Conduzes-me a tua casa mas não me deixas subir. Vamos até ao jardim mais próximo e piqueniqueamos com copos de plástico e sem pratos. Temos a sorte de eu ter trazido pauzinhos.
Falamos, rimos e brincamos enquanto comemos e bebemos. Depois do almoço deitamo-nos na relva a uma distância segura um do outro e gargalhamos mais. E mais ainda. A química é inegável e está latente.
Pergunto se queres um café e, à tua resposta positiva, levanto-me para o ir buscar ao quiosque, perguntando antes se vinhas ou ficavas. À tua resposta fui sozinho e trouxe as duas bebidas quentes e reconfortantes. Levei-te a casa em seguida e à porta agradeceste a companhia e despediste-te com um beijo carinhoso mas casto na minha bochecha.
Mal tinha chegado ao carro e tinha uma mensagem tua, a agradecer novamente. Respondi por voice. A tua resposta só a ouvi já em casa. Lamentavas não me teres convidado a subir. Respondi que foi a tua melhor decisão do dia, porque depois de um almoço daqueles, regado a bom vinho, não ia correr bem. Ou ia...
Respondeste em seguida que era mesmo isso que querias. Que não corresse bem... Ou corresse.
Saí de casa novamente e percorri os 15 quilómetros que nos separavam. Quando te liguei não disseste bom dia nem boa tarde, antes...
- Já chegaste?
- Sim
- Sobe. Destranquei a porta do prédio. Terceiro andar.
Subo as escadas duas a duas e no terceiro andar vejo uma porta entreaberta. Entro e chamo-te. Respondes da divisão à direita. Descalço-me e entro. É um quarto e tu estás deitada na cama...

O resto da tarde, guardo-a na minha memória...
